Breve história sobre a bióloga que revolucionou o mundo dos pesticidas nos anos 60

Postada por AtualizaSAT.tk, 27 de julho de 2019


A bióloga Rachel Carson

U.S. Fish and Wildlife Service

“Fixar tolerâncias é autorizar a contaminação dos alimentos consumidos pela população com substâncias químicas venenosas a fim de que o horticultor e a indústria de processamento de alimentos possam desfrutar do benefício de uma produção mais barata – e punir o consumidor exigindo que ele mantenha uma atitude de vigilância para garantir que não vá receber uma dose letal. Entretanto, executar o trabalho de vigilância corretamente exigiria verbas além do que qualquer legislador teria coragem de conceber, dado o volume e a toxicidade atuais dos produtos químicos agrícolas. Assim, no fim das contas, o infeliz consumidor paga os impostos, mas, apesar disso, recebe sua cota de venenos” – Rachel Carson, em “Primavera Silenciosa”, 1962.

Uma mulher miúda, de voz calma e muito gentil, a bióloga norte-americana Rachel Carson revolucionou o mundo denunciando o mal causado por produtos químicos que vinham tomando força como grandes defensores contra insetos e pragas. Talvez ela não tenha sido a primeira a alertar para o fato de que não há milagres e que tudo tem dois lados. Se podiam livrar-nos de perder produções agrícolas inteiras e de não contrairmos doenças, tais produtos também estavam aspergindo sobre humanos e sobre o meio ambiente uma carga poderosa de toxicidade.

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Carson foi a pioneira, isto sim, ao demonstrar os efeitos colaterais dos medicamentos com uma linguagem poética. Seus textos, primeiro editados pela revista “The New Yorker” e em 1962 compilados no livro “Primavera Silenciosa”, acabaram se tornando uma espécie de bíblia para os ambientalistas.

A bióloga e zoóloga expõe com doçura um tema árido. Por conta disso, seus detratores, desacostumados a enxergar lirismo na vida, não a pouparam. Ela, que sempre preservou muito sua privacidade, viu-se de hora para outra no meio de um turbilhão político depois que mexeu com forças poderosas do centro econômico da época.

“Disseram-me que meu livro era muito mais venenoso do que os produtos que eu estava denunciando como venenos. Intoxicada com a sensação de seu poder, a humanidade parece estar se envolvendo cada vez mais em experiências de destruição de si própria e de seu mundo”.

Aturdida com essas últimas notícias sobre liberação de mais 262 agrotóxicos pelo governo Bolsonaro e sobre a mudança na classificação de tais produtos, decidi revisitar o livro de Carson e conhecer mais de sua história. Por quase trinta anos a atriz Kaiulani Lee – de “Law and Order” – interpretou a bióloga numa peça escrita por ela própria, chamada “A Sense of Wonder”.

Recentemente, a peça virou um documentário, material de estudo para qualquer pessoa que se interesse por perceber que qualquer atividade que envolva a vida, por mais mercadológica, precisa ser entendida, também, com poesia. E que não ponha o lucro acima das pessoas.

nvisa muda classificação dos agrotóxicos e vai alterar os rótulos dos produtos segundo padrão internacional

Nathalia Ceccon/Idaf-ES

A peça foi encenada em mais de cem universidades, colégios, conferências nacionais e regionais sobre conservação, meio ambiente, educação. Em 2007 foi assistida por parlamentares e público no Capitol Hill, em Washington.

Carson nasceu na Pensilvânia e passou grande parte de sua vida trabalhando e pesquisando biologia marinha, sobre o que escreveu três livros, incluindo “O mar que nos cerca”, que a elevou à categoria de escritora de ciências mais respeitada de seu país. “Primavera silenciosa”, que foi editado no Brasil pela Gaia Editora, instigou o presidente John Kennedy a proibir a produção doméstica do DDT e criou um movimento popular exigindo a proteção do meio ambiente por meio de regulação do estado.

Tudo começou em 1958, quando Carson recebeu uma carta de sua amiga Olga Owens Huckins, moradora de Massachusetts, contando que no dia seguinte à pulverização de DDT contra mosquitos em sua cidade seus pássaros amanheceram mortos. Com os olhos e o bico abertos, as asas estateladas como se tivessem perdido o ar, os bichos foram as únicas vítimas do pesticida, já que os mosquitos continuavam à solta. Huckins pedia a Carson se ela não teria algum conhecido em Washington que pudesse interferir e parar as pulverizações. Conseguiu bem mais do que isso.

Pesquisadora dedicada ao extremo, Carson costumava dizer que trabalhava de dia e escrevia à noite. Pediu ajuda a vários amigos e não só demonstrou o mal que hidrocarbonetos fazem ao organismo humano, como também tocou num ponto ainda mais sensível ao capital: tudo aquilo estava acontecendo para se estocar alimentos e exportá-los.

“Dizem-nos que o uso intenso e em expansão de pesticidas é necessário para manter nossa produção agrícola. Entretanto, será que nosso problema real não é de superprodução?”.

“Nossas fazendas, apesar das medidas para reduzir a área destinada à produção e pagar os fazendeiros para não produzir, têm produzido colheitas de um excesso tão espantoso que o contribuinte norte-americano de impostos em 1962 está pagando mais de 1 bilhão de dólares ao ano e custos totais do programa de armazenamento do excesso de alimentos produzidos”, escreve ela em “Primavera Silenciosa”.

Era um desafio. E continua sendo. Como respeitar o afã de desenvolvimentismo e, ao mesmo tempo, lidar com algo tão facilmente perecível quanto a duração de produtos vivos?

Carson depôs no Congresso norte-americano, e as imagens deste depoimento mostram uma mulher de imagem frágil que se agiganta em argumentos sólidos, assegurando que um dos direitos humanos mais básicos deveria ser o “direito de o cidadão estar protegido em seu lar contra a intrusão de venenos aplicados por outras pessoas”.

Infelizmente, ela própria não conseguiu se defender. Um câncer no seio, que evoluía rapidamente em metástase, foi a causa de sua morte, prematura, aos 56 anos, em 1964, portanto dois anos apenas depois de seu livro ter começado a mudar paradigmas. E ninguém, a não ser os mais chegados, sabia que ela havia contraído a doença.

Os críticos de Carson argumentavam que, se a vida seguisse como queria a bióloga, a humanidade voltaria para a Idade das Trevas, morrendo como formigas por causa dos males provocados por insetos e vermes. Este é um ponto importante. Em geral, os que defendem ideias aos gritos e se opõem ferrenhamente àquele que expõe pensamentos diferentes, não ouvem o que é dito.

Carson não queria, é evidente, a volta às cavernas. Em seu livro, ela expõe testes variados com outras formas de pôr fim a insetos e pragas sem necessidade do uso de pesticidas. Assim, em vez de ler “Primavera Silenciosa” como um veneno, é possível lê-lo como um tratado de cuidados à vida.

Manter o uso em excesso dos produtos tóxicos na agricultura é, portanto, uma questão de querer perpetuar o mesmo modelo, fechando os olhos e ouvidos às evidências que mostram os males que eles podem causar. Cabe a nós, cidadãos comuns, ouvir os alertas. Em pesquisa realizada pelo DataFolha e publicada hoje, 78% dos ouvidos dizem que não confiam no uso dos agrotóxicos. Bom momento para pensar, então, numa mudança de hábitos e introduzir alimentos que possam estar menos “defendidos”. Quanto maior a demanda por produtos sem agrotóxicos, mais barato eles vão custar. É a lei da oferta e da procura.

Fonte: G1

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